sexta-feira, Novembro 28, 2014

Reality...

Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes;
quero pensar nelas
como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.


Alberto Caeiro



[Dead can dance - Dreams made flesh]

quinta-feira, Novembro 27, 2014

Alternativa...

Imaginem um Portugal em 85 com uma MTV ou VH1 pujantes, no qual o "video [had already] killed the radio star" e a malta bebia as influências musicais optica e não acusticamente. 
Algo me diz que, com este vídeo, e naquele tempo, o Reininho e o fantástico Psicopátria que se lhe seguiu não teriam obtido o merecido sucesso de então. 
Aliás, atrever-me-ia a dizer que, mesmo hoje em dia, este vídeo coloca em causa as festas de garagem, os slows... enfim, toda uma adolescência de algumas pessoas. 
É uma espécie de "Olha que afinal não há Pai Natal, filho!" da música que habitou durante décadas o imaginário hetero. 
Pessoalmente, continuo a adorar a música e as recordações que me traz (não sobreponíveis à do vídeo). 

RAM



[GNR - Dunas]

Declaração...

Pedinte não posso viver na ignorância
Preciso de ver ouvir e abusar
De te ouvir nua e ver nua
Para abusar das tuas carícias

Por felicidade ou por desgraça
Sei de cor o teu segredo
Todas as portas do teu império
As portas dos olhos as portas das mãos
As portas dos seios e da tua boca onde toda a língua se liquefaz

E a porta do tempo aberta entre as tuas pernas
A flor das noites de verão com lábios de fúria

No limiar da paisagem onde a flor ri e onde a flor chora
Mesmo guardando essa palidez de pérola morta
Enquanto dás o teu coração enquanto abres as pernas

És como o mar embalas as estrelas
És o campo do amor unes e separas
Os amantes e os loucos
Tu és a fome tu és o pão tu és a sede tu és a grande embriaguez

É a a derradeira aliança entre a força do bem e o querer do devaneio.


Paul Éluard

quarta-feira, Novembro 26, 2014

Olhar...

Quatro biliões de pessoas nesta Terra 
e a minha imaginação é como sempre foi.
Não se dá bem com números elevados. 
É sempre ainda um pormenor que a comove
Como luz de lanterna, esvoaça no escuro,
iluminando apenas os rostos mais à mão,
enquanto os outros vão seguindo às cegas,
na pena incontinente, o imprensar.
Nem o próprio Dante, porém, o impediria.
Quanto mais quando se o não é.
Nem que todas as musas me acudissem.

Non omnis moriar - mágoa prematura. 
Será que todavia vivo inteiro e isto basta?
Nunca bastou e agora muito menos. 
É rejeitando que escolho , não há outra maneira,
mas é mais denso, mais obsessivo do que nunca.
Pelo preço de perdas incontáveis - um minúsculo poema, um suspiro. 
Ao retumbante apelo respondo sussurrando. 
Quanto a mim silêncio não direi. 
Rato em sopé de maternal montanha.
A vida dura três marcas de garras na areia.

Não são sequer, como deviam, humanos os meus sonhos O
Há neles mais solidão que multidões e gritos.
Aparece, às vezes, por momentos, alguém há muito morto.
É uma simples mão que abre a porta.
As respostas de um eco cobrem a casa vazia.
Eu precipito-me correndo do limiar a uma planura
de silêncio, como sem dono, anacrónica já.

Ignoro donde me vem este espaço ainda em mim.


Wislawa Szymborska

domingo, Novembro 23, 2014

Voices...

Exquisite voice!
Absolutely delicious! 
Plus... a  Dutch jazz singer - how I miss Amsterdam - singing a song called Paris.
The sweet, lovely and adorable Paris of my discontent.

RAM



[Caro Emerald - Paris]

Sócrates...

A nossa imprensa é um fenómeno. 
Peguemos nesta "caixa" do Público
Apresentemos o personagem da mesma: JAIME COUTO ALVES. 
Factos relevantes na referida notícia? 
Eis alguns: 
- Jaime Couto Alves (JCA) está envolvido no caso dos VISTOS DOURADOS (onde estão implicados altos dirigentes da Administração Pública nomeados pelo GOVERNO PSD/CDS) e é sócio de MARQUES MENDES (PSD);
- É também sócio de João Miguel Silveira Botelho (ex-dirigente do PSD e administrador da Fundação Champallimaud);
- Onde aparentemente só havia laranjal, surge um dado politicamente relevante: JCA é sócio de um genro de Almeida Santos (PRESIDENTE DO PS na altura de Sócrates). 

A coisa começa a compor-se.  Melhora quando descobrem que JCA foi "há alguns anos" (sic) quadro da OCTAPHARMA. 

Pronto. Já é possível colocar no mesmo título "SÓCRATES" e o processo dos "VISTOS DOURADOS". Assim. Sem mais. 

Estranhamente ainda não vi ninguém a explorar o facto dos ALEGADOS 20 milhões que Sócrates tinha na UBS terem sido ALEGADAMENTE depositados em 2010 no BES (sim, esse mesmo, o que tinha Ricardo Salgado como presidente) ao abrigo do Regime Extraordinário de Regularização Tributária. 

Estou certo que até final desta semana vão encontrar ligações de Sócrates à Man Ferrostaal e/ou German Submarine Consortium, SLN/BPN e outros casos similares, presentes e passados. 

Sugiro enforcamento - de preferencia no Terreiro do Paço, símbolo do Poder de/o Estado - do homem. Assim, de uma só vez, e com um só nome, o País justifica DÉCADAS de: 
a) Práticas etica e moralmente deploráveis envolvendo a indigna mistura entre interesses privados e públicos; 
b) Negligente gestão da res pública; 
c) Tráfico de influências.

Afinal, está bom de ver que tudo isto vai dar, bem vistas as coisas, a um só homem: Sócrates. 

Para que conste: não nutro nenhuma simpatia particular pelo auto-proclamado "animal político", nem este texto pretende ser um manifesto em sua defesa. 

Aborrece-me, isso sim, viver num país onde, como disse recentemente Pacheco Pereira, os jornalistas são preguiçosos e, sobretudo, que prima pelas avaliações superficiais, pela Justiça arbitrária e pelo culto acéfalo do "status quo".

Mal por mal, espero que tudo isto sirva para MUDAR os actores políticos nas próximas eleições legislativas. 

RAM 

PS - Para justificar a referência à arbitrariedade da Justiça poderia recorrer a muitos exemplos. Contudo, irei limitar-me a uma questão que, até hoje, nunca vi levantada, nem esclarecida. 
Vejamos. 
Depois de detido à chegada ao Aeroporto de Lisboa, em pleno circo mediático - segredo de justiça???? - Sócrates tem permanecido em prisão preventiva devido ao risco de "interferência na investigação" e "destruição de informação relevante para a investigação em curso". 
Muito bem. Vou dar tudo isto de barato. 
Expliquem-me, pois, o seguinte: o facto de Ricardo Salgado ter transferido documentação em seu poder na sede do antigo BES para salas alugadas numa importante unidade hoteleira do Estoril não é passível de ser considerada uma potencial "interferência na investigação" e "destruição de informação relevante para a investigação em curso"? 
Se calhar sou eu que estou a perder demasiado tempo em cogitações hebdomadárias.

Kitsch...

Eu te agradeço, coração, 
a diligência, porque te esfalfas 
sem adulações, sem prémios, 
numa inata urgência. 

Tens setenta merecimentos por minuto. 
Cada tua contracção 
é como impulso a um barco 
no mar alto 
em rota de circum-navegarão. 

Eu te agradeço, coração, 
por uma vez e outra ainda 
me ires retirando de um todo 
mesmo no sonho separada. 

E zelas por que não sonhe um voo fundo 
um voo tão fundo 
que torne desnecessárias as asas. 

Eu te agradeço, coração, 
por mais uma vez ter acordado, 
e por, embora domingo, 
dia de descanso, 
sob as costelas 
ir o frenesim normal das sextas feiras.


Wislawa Szymborska

sábado, Novembro 22, 2014

Sábado...

Novembro 2014. 
Depois de termos vendido as jóias da coroa, estamos a vender os rins. 
Entretanto, o aparelho de Estado, ao seu mais alto nível, embora Gold por fora, está mais podre do que nunca por dentro. 
Uma deputada do PS (que eu apreciava), filha de um ex-dirigente do CDS (pelo qual nutro admiração intelectual), profere umas declarações que a colocam intelectualmente ao nível de Isabel Jonet (ou mesmo abaixo). 
Um ex-primeiro-ministro é detido (em directo????? segredo de justiça????) à chegada ao aeroporto, naquilo que podemos designar de verdadeiro circo mediático. 
No meio disto tudo, e porque hoje é Sábado, a única coisa que se me oferece fazer é parafrasear a Ivone Silva da minha infância. 

RAM


Sede...

Sede assim - qualquer coisa 
serena, isenta, fiel. 

Flor que se cumpre, 
sem pergunta. 

Onda que se esforça, 
por exercício desinteressado. 

Lua que envolve igualmente 
os noivos abraçados 
e os soldados já frios. 

Também como este ar da noite: 
sussurrante de silêncios, 
cheio de nascimentos e pétalas. 

Igual à pedra detida, 
sustentando seu demorado destino. 
E à nuvem, leve e bela, 
vivendo de nunca chegar a ser. 

À cigarra, queimando-se em música, 
ao camelo que mastiga sua longa solidão, 
ao pássaro que procura o fim do mundo, 
ao boi que vai com inocência para a morte. 

Sede assim qualquer coisa 
serena, isenta, fiel. 

Não como o resto dos homens. 


Cecília Meireles

sexta-feira, Novembro 21, 2014

Depois...

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão 
devagar sobre o peito da terra e sente respirar 
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a 
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro 
e as campainhas azuis; a menta perfumada para 
as infusões do verão e a teia de raízes de um 
pequeno loureiro que se organiza como uma rede 
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca 

foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo. 
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a 
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor 
da tempestade que faz ruir os muros: explode no 
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu 
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo, 
hão-de pedir-to quando chegar a primavera. 


Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, Novembro 20, 2014

Ausências...

hoje 
quais primeiras folhas que
se entregam ao húmus da terra 
num outono a dealbar 
no ciclo das estações que de-compõem a minha existência 
fios salgados de um pequeno rio que nasce no meu âmago 
escorrem pelo meu rosto 
imolando-se no fogo 
de vastos campos de afectos 
por ceifar 

vivo manhã num tempo novo 
depois do equinócio 
em que o movimento celeste 
lentamente distancia a luz 
do meu ser 
conduzindo a novos compassos 
onde predominará 
a escuridão 
em que vivo a ausência de ti


Rui Amaral Mendes [in Na luz do Crepúsculo]