domingo, Novembro 23, 2014

Kitsch...

Eu te agradeço, coração, 
a diligência, porque te esfalfas 
sem adulações, sem prémios, 
numa inata urgência. 

Tens setenta merecimentos por minuto. 
Cada tua contracção 
é como impulso a um barco 
no mar alto 
em rota de circum-navegarão. 

Eu te agradeço, coração, 
por uma vez e outra ainda 
me ires retirando de um todo 
mesmo no sonho separada. 

E zelas por que não sonhe um voo fundo 
um voo tão fundo 
que torne desnecessárias as asas. 

Eu te agradeço, coração, 
por mais uma vez ter acordado, 
e por, embora domingo, 
dia de descanso, 
sob as costelas 
ir o frenesim normal das sextas feiras.


Wislawa Szymborska

sábado, Novembro 22, 2014

Sábado...

Novembro 2014. 
Depois de termos vendido as jóias da coroa, estamos a vender os rins. 
Entretanto, o aparelho de Estado, ao seu mais alto nível, embora Gold por fora, está mais podre do que nunca por dentro. 
Uma deputada do PS (que eu apreciava), filha de um ex-dirigente do CDS (pelo qual nutro admiração intelectual), profere umas declarações que a colocam intelectualmente ao nível de Isabel Jonet (ou mesmo abaixo). 
Um ex-primeiro-ministro é detido (em directo????? segredo de justiça????) à chegada ao aeroporto, naquilo que podemos designar de verdadeiro circo mediático. 
No meio disto tudo, e porque hoje é Sábado, a única coisa que se me oferece fazer é parafrasear a Ivone Silva da minha infância. 

RAM


Sede...

Sede assim - qualquer coisa 
serena, isenta, fiel. 

Flor que se cumpre, 
sem pergunta. 

Onda que se esforça, 
por exercício desinteressado. 

Lua que envolve igualmente 
os noivos abraçados 
e os soldados já frios. 

Também como este ar da noite: 
sussurrante de silêncios, 
cheio de nascimentos e pétalas. 

Igual à pedra detida, 
sustentando seu demorado destino. 
E à nuvem, leve e bela, 
vivendo de nunca chegar a ser. 

À cigarra, queimando-se em música, 
ao camelo que mastiga sua longa solidão, 
ao pássaro que procura o fim do mundo, 
ao boi que vai com inocência para a morte. 

Sede assim qualquer coisa 
serena, isenta, fiel. 

Não como o resto dos homens. 


Cecília Meireles

sexta-feira, Novembro 21, 2014

Depois...

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão 
devagar sobre o peito da terra e sente respirar 
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a 
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro 
e as campainhas azuis; a menta perfumada para 
as infusões do verão e a teia de raízes de um 
pequeno loureiro que se organiza como uma rede 
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca 

foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo. 
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a 
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor 
da tempestade que faz ruir os muros: explode no 
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu 
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo, 
hão-de pedir-to quando chegar a primavera. 


Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, Novembro 20, 2014

Ausências...

hoje 
quais primeiras folhas que
se entregam ao húmus da terra 
num outono a dealbar 
no ciclo das estações que de-compõem a minha existência 
fios salgados de um pequeno rio que nasce no meu âmago 
escorrem pelo meu rosto 
imolando-se no fogo 
de vastos campos de afectos 
por ceifar 

vivo manhã num tempo novo 
depois do equinócio 
em que o movimento celeste 
lentamente distancia a luz 
do meu ser 
conduzindo a novos compassos 
onde predominará 
a escuridão 
em que vivo a ausência de ti


Rui Amaral Mendes [in Na luz do Crepúsculo]

segunda-feira, Novembro 17, 2014

Esboço...

Estou só e sobre a mesa diante de mim,
Está, pálido e frágil, o teu retrato de criança;
Reconheço aí o que agora chamo
O sonho, a nostalgia: o esboço de um sorriso
Sonhador, perdido, e no nicho da órbita,
Sob a fronte, o olho que espreita com doçura
E procura já longe na vida,
E sabe já conceder mil graças!


Rainer Maria Rilke a Lou Andreas-Salomé


domingo, Novembro 16, 2014

Legacies...

Mine are the night and morning, 
The pits of air, the gulf of space, 
The sportive sun, the gibbous moon, 
The innumerable days. 

I hid in the solar glory, 
I am dumb in the pealing song, 
I rest on the pitch of the torrent, 
In slumber I am strong. 

No numbers have counted my tallies, 
No tribes my house can fill, 
I sit by the shining Fount of Life, 
And pour the deluge still; 

And ever by delicate powers 
Gathering along the centuries 
From race on race the rarest flowers, 
My wreath shall nothing miss. 

And many a thousand summers 
My apples ripened well, 
And light from meliorating stars 
With firmer glory fell. 

I wrote the past in characters 
Of rock and fire the scroll, 
The building in the coral sea, 
The planting of the coal. 

And thefts from satellites and rings 
And broken stars I drew, 
And out of spent and aged things 
I formed the world anew; 

What time the gods kept carnival, 
Tricked out in star and flower, 
And in cramp elf and saurian forms 
They swathed their too much power. 

Time and Thought were my surveyors, 
They laid their courses well, 
They boiled the sea, and baked the layers 
Or granite, marl, and shell. 

But he, the man-child glorious, -
Where tarries he the while? 
The rainbow shines his harbinger, 
The sunset gleams his smile. 

My boreal lights leap upward, 
Forthright my planets roll, 
And still the man-child is not born, 
The summit of the whole. 

Must time and tide forever run? 
Will never my winds go sleep in the west? 
Will never my wheels which whirl the sun 
And satellites have rest? 

Too much of donning and doffing, 
Too slow the rainbow fades, 
I weary of my robe of snow, 
My leaves and my cascades; 

I tire of globes and races, 
Too long the game is played; 
What without him is summer’s pomp, 
Or winter’s frozen shade? 

I travail in pain for him, 
My creatures travail and wait; 
His couriers come by squadrons, 
He comes not to the gate. 

Twice I have moulded an image, 
And thrice outstretched my hand, 
Made one of day, and one of night, 
And one of the salt sea-sand. 

One in a Judaean manger, 
And one by Avon stream, 
One over against the mouths of Nile, 
And one in the Academe. 

I moulded kings and saviours, 
And bards o’er kings to rule; -
But fell the starry influence short, 
The cup was never full. 

Yet whirl the glowing wheels once more, 
And mix the bowl again; 
Seethe, fate! the ancient elements, 
Heat, cold, wet, dry, and peace, and pain. 

Let war and trade and creeds and song 
Blend, ripen race on race, 
The sunburnt world a man shall breed 
Of all the zones, and countless days. 

No ray is dimmed, no atom worn, 
My oldest force is good as new, 
And the fresh rose on yonder thorn 
Gives back the bending heavens in dew.


Ralph Waldo Emerson 

Alternativa...

Li a entrevista de Ana Drago ao Expresso. 

Realço a seguinte passagem:

"Não interessa traçar linhas vermelhas. Importa abrir caminhos verdes. Não se começa uma discussão assim quando o que importa é mobilizamos o país para sustentar um governo que defenda verdadeiramente a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde, a sustentabilidade da segurança social e um modelo de solidariedade interoperacional." 

Espero que assim seja. 
Revejo-me nas premissas que sustentam o projecto. 
Gostei, particularmente, de não encontrar animosidade relativamente ao Bloco, facto que demonstra que as motivações da Ana Drago, do Daniel Oliveira e do Rui Tavares são POLÍTICAS... não pessoais.

RAM

Proibido...

É proibido chorar sem aprender, 
Levantar-se um dia sem saber o que fazer 
Ter medo de suas lembranças. 
É proibido não rir dos problemas 
Não lutar pelo que se quer, 
Abandonar tudo por medo, 
Não transformar sonhos em realidade. 
É proibido não demonstrar amor 
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor. 
É proibido deixar os amigos 
Não tentar compreender o que viveram juntos 
Chamá-los somente quando necessita deles. 
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas, 
Fingir que elas não te importam, 
Ser gentil só para que se lembrem de você, 
Esquecer aqueles que gostam de você. 
É proibido não fazer as coisas por si mesmo, 
Não crer em Deus e fazer seu destino, 
Ter medo da vida e de seus compromissos, 
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro. 
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar, 
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se desencontraram, 
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente. 
É proibido não tentar compreender as pessoas, 
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua, 
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte. 
É proibido não criar sua história, 
Deixar de dar graças a Deus por sua vida, 
Não ter um momento para quem necessita de você, 
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira. 
É proibido não buscar a felicidade, 
Não viver sua vida com uma atitude positiva, 
Não pensar que podemos ser melhores, 
Não sentir que sem você este mundo não seria igual. 


Pablo Neruda

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[Leonard Cohen - A thousand kisses deep]

sábado, Novembro 15, 2014

Frio...

Na minha dor nada se move 
Estou à espera ninguém virá 
Nem de noite nem de dia 
Nem jamais do que fui eu próprio 

Meus olhos separaram-se dos teus e perdem 
A confiança perdem o briho que tinham 
Minha boca separou-se da tua boca 
De prazer e do sentido 
Do amor e do sentido da vida 
Estas mãos separaram-se das tuas e não seguram 
Nada 
Os meus pés separaram-se dos teus 
Não andarão mais não há mais caminho 
Deixaram de sentir o peso e o repouso que lhes dava 
É-me dado a ver a minha vida
Esvair-se com a tua 
A tua que por ser seu poder 
Me faz julgar infinita a minha 

E o porvir minha única esperança é minha tumba 
Semelhante à tua cercada por um mundo sem calor 

Estava tão proximo de ti que junto dos outros sinto frio. 


Paul Éluard

Reach...


[Cocteau Twins - Pur]