sábado, dezembro 20, 2014

Futuro...

Nos rios a norte do futuro
lanço a rede, que tu
hesitante carregas com
sombras
escritas por pedras.


Paul Celan

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Farol...

Atravesso o rio
e entre as árvores clsreia
a luz inimitável dos teus olhos.
Quando regresso
deito-me na cama e anoitece,
mas o farol ainda me guia
e às apalpadelas toco o rasto
do caminho que nunca percorri.


Pedro Tamen

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Questão...

Que fazes tu aqui
imóvel e sentado
na beira desta cama,
à beira desta chama
que te terá queimado,
que te terá espalhado
no ar de haraquiri?

Respondes tu que esperas
um qualquer nada vindo
dos mundos das quimeras,
que esse mundo é que é lindo.
E vais dizendo amor,
e vais-te dando pobre:

mendigo do pior,
a manta que te cobre
é um tempo menor.


Pedro Tamen

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Voices...

On a cold day, a warm and beautiful voice from a yet another cold north european country.

RAM



[Sophie Zelmani - Stay with my heart]

Desejo...

Por mim, e por vós, e por mais aquilo 
que está onde as outras coisas nunca estão, 
deixo o mar bravo e o céu tranquilo: 
quero solidão. 

Meu caminho é sem marcos nem paisagens. 
E como o conheces? - me perguntarão. 
- Por não ter palavras, por não ter imagens. 
Nenhum inimigo e nenhum irmão. 

Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada. 
Viajo sozinha com o meu coração. 
Não ando perdida, mas desencontrada. 
Levo o meu rumo na minha mão. 

A memória voou da minha fronte. 
Voou meu amor, minha imaginação... 
Talvez eu morra antes do horizonte. 
Memória, amor e o resto onde estarão? 

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra. 
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão! 
Estandarte triste de uma estranha guerra...) 

Quero solidão. 


Cecília Meireles

segunda-feira, dezembro 15, 2014

Transformação...

Diante de teu rosto tardio
so-
litário entre
noites que também me transformam,
algo que outrora já entre nós estivera,
se instalou, in-
tocado por pensamentos.


Paul Celan

domingo, dezembro 14, 2014

LISTEN.

It was only very recently that I became acquainted with Iyeoka Ivie Okoawo.
All started with her music.
Then came her poetry.
Today, on my way home, back from lunch at my parents', while passing by a couple of shopping malls, I was listening to her last work and I couldn't help feeling slapped by the power of her words in this poem.
I've realised that we are now only 10 days away from Christmas Eve.
Forget Band Aid 3.0.
THESE are the words...

RAM

I travel home to remember the sound of morning 
I choose the evening to pray I remember this as it is 
For when the city returns 
When the sound of the green-line trolley cars and skyscrapers 
Surround my senses diminishing this version of my imagination -

I will remember this 
The silence and the night time 
I will remember red sand on bare feet 
My skin sticky glistening in the sun 
My hair like untamed wool 
I will remember the air thick of Africa 

I will remember my mother in the night 
And the children she cares for 
I will see them once more as they play 
Peeking at me from the crack in the doorway 

I will remember my aunti - her famous Jeloff rice 
Asking me in flawless Ishan native tongue 
“ofure…Onegbe?”… How is everything… your too skinny” 
And I struggling to keep up clumsily responding 
“Butayay aunti?” That means, I don’t know what you just said 

I will remember the market place 
The women selling smoked corn and plantain 
The taste of moy-moy and egusi 
The sound of Doris pounding yam 
Fresh oranges from the Arrimogiga farm 

When Boston city lights mask the majesty of my favorite constellations 
I will remember the moon… 
Pregnant and smiling 
Because I am a poet 
Invested enough to write about it 
Perhaps because I am a poet 
I will remember the unseen 

The homeless and the beggars, the roadside wanderers, 
people just trying to survive 
Children roadside selling cell phones and unwanted trinkets 
I will remember the local roads 
Beaten and eroded by rain and time 
Huts built beside a 15 story hotel skyrise 
So many having so much 
Neighbors with others living with nothing 
But the hand me downs on their backs 
And the realities of poverty crushing their 
promises of tomorrow 

I leave behind my rose colored glasses 
In my grandfather’s village 
Because when my plane finally lands back in Boston 
I want to believe that Nigeria changes me every time 
These moments teach me how to recognize what we take for granted 
constant electricity and clean water 
hospitals on every corner 
the opportunity to rise beyond our native borders 

These are the details that risk a fate of becoming forgotten or lost 
Like sounds of the morning 
For when the city returns 
When the sound of the green-line trolley cars and skyscrapers 
Surrounds my senses diminishing this version of my imagination 
I will remember this 
We need to remember this 


Iyeoka Ivie Okoawo


[Iyeoka - I travel home]

Voices...

An American poet and singer of Nigerian ancestry.
Magnificent voice!


RAM


[Iyeoka - Simply Falling]

Pedido...

Fala tu também,
fala por último,
diz o que tens a dizer.

Fala -
Mas não separes o Não do Sim.
Dá também o sentido ao teu dizer:
dá-lhe a sombra.

Dá-lhe sombra suficiente,
dá-he tanta
como a que sabes repartir-se em teu redor entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.

Olha à volta:
vê, como a vida nasce à tua roda - 
Na morte! A vida!
Diz a verdade quem diz a sombra.

Mas eis que se atrofia o lugar onde estás:
E agora para onde, despojado de sombra, para onde?
Sobe. Tacteia para cima.
Tornas-te mais delgado, mais irreconhecível, mais fino!
Mais fino: um fio,
por onde ela quer descer, a estrela:
para nadar lá em baixo, lá em baixo,
onde se vê a cintilar na ondulação 
de palavras errantes.


Paul Celan

sábado, dezembro 13, 2014

Mistério(s)...

[...]
- Não há quem entenda as mulheres.
- Não digas asneiras.
- A máxima faz parte da minha filosofia pessoal. Acho que as mulheres são como as ondas do mar. Sabe-se, porventura, a causa do seu movimento? Alguém já averiguou porque é que o mar é imenso e misterioso? No entanto, banhamo-nos nele e às vezes conseguimos navegá-lo. Às mulheres acontece-lhes o mesmo: são imensas, misteriosas e móveis. Lembre-se de D. Ximena. Não há forma de saber o que lhes passa lá dentro, nem por onde é que vão sair; mas, entretanto, deixam-se navegar tão lindamente. O segredo está em não lhes fazer muitas perguntas.
[...]

Gonzalo Toreente Ballester