segunda-feira, Julho 21, 2014

Condenação...

Já te foi tão próxima essa maneira de morrer,
junto ao forno, os dias medidos
pelo açúcar dos frutos.

Hoje sabes que não faltará água fresca
e as bagas silvestres abundarão nas cestas,
mas nada te poderá chamar à intimidade desse mesa.

Partirás então como chegaste, intruso,
na boca a cal de um poema que não soubeste entender.


Jorge Melícias

domingo, Julho 20, 2014

Depois...

Amei-te como  como na vida se ama uma só vez;
e todos os afectos que dividi depois eram
apenas cinzas que evocavam o brilho dessa
imensa chama. Troquei suspiros e beijos

com muitas outras bocas quando, na minha,
o travo da solidão era uma amarga desculpa
para repartir o pouco que não tinha; mas

em nenhuma quis morder fruto mais
suculento que o silêncio nem permiti que
pousasse sequer o meu nome verdadeiro - 
que só nos teus lábios era graça e canção

e eco de loucura. Foi o meu corpo tão vão
naqueles que o cingiram que me faria velho
a tentar recordar-lhe os gestos hesitantes,
as convulsões da pressa e os veios de sal
descreviam no litoral da pele o aviso de uma
paisagem interior abandonada. Mas de nada

me serviu amar-te assim - pois, ao dizer-te o
que não pude ser longe de ti, digo-te o que sou
e isso há-de guardar-te para sempre de voltares.


Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, Julho 18, 2014

Retrato...

Apenas um homem
com febre de versos:
minha sã imagem
nua até aos ossos


António Barahona

quinta-feira, Julho 17, 2014

Past present...

It's been a while since I last heard this song.
Albums like "Soul mining" and "Mind bomb" were a MUST, back in the good old times.
The funny thing, though, is how something that was released in 1989, in the same year the Wall felt, remains incredibly up-to-date.
Matt Johnson was a prophet!

RAM



[The The -  Armageddon days are here (again)]

Quero...

Quero dormir na água das palavras
que amam o silêncio
e a lentidão da luz
que é o fulgor de uma evidência indecifrável

Quero ser a concha do ingénuo sossego
de uma flor branca
com o monótono murmúrio
de uma respiração solar

Quero ser o ouvido de veludo
de um insecto azul
e quero beber  linfa do olvido
numa boca de argila
para sentir a monotonia ardente
da garganta da terra


António Ramos Rosa

terça-feira, Julho 15, 2014

Escolha...

[...]
tens este pedaço de chão, escolhe definitivamente
entre a vida e a morte. não penses em mais nada,
senão na vida e na morte. quando sentires o corpo 
frio, o sangue sem correr, percebe que conheces
mais do que te parecia à partida, e que há
neste pedaço de chão, enquanto tu estiveres
nele, uma extensão de cada coisa do mundo. e
estarás como tentacular, acedendo aqui e 
acolá pela magnifica estratégia da existência
humana, e em cada pensamento trarás para perto
o que julgas longe e farás a gestão difícil, mas
rigorosa, dos teus afectos. só então te erguerás
convicto da vida ou da morte. o corpo menos frio,
o sangue começando a correr, talvez uma vontade 
de ver pela janela quem circunda a casa de vez
em quando. hoje, a esta mesma hora em que te 
falo, estou contigo, e se não estiver, se por um 
acaso escolher a morte, pensa que não é nada
senão um exagero no tempo com com que deixei
o corpo frio, e o sangue, já sabes, sem correr.


valter hugo mãe



[Mar adentro - Ramon Sampedro (por Javier Bardem)]

segunda-feira, Julho 14, 2014

Hollowness...

alguma vez pensaste que um homem se
poderia cobrir com a morte em plena vida.
um homem que fosse o rosto da morte e que
pudesse persistir entre nós, pálido, frio,
sem medo nem desejo. e se esse homem te
passasse rente ao corpo, o suficiente para
sentires que o seu sangue não circula, o suficiente
para perceberes que não te reconhecerá
um gesto simpático. esperará de ti a anulação
de todas as coisas, a secura expressiva, a
morte que há-de vir. e se esse homem te falasse,
que te parece que diria. talvez te falasse do
futuro, do que está para além de mais nada. talvez
te cumprimentasse simplesmente, sem mais conteúdo,
sem interesse. ou então poderia dizer-te que
o teu mundo é um colosso de monstros, seres
animados com a escuridão das tuas entranhas, rabiando
nos teus ossos, ferindo caminho até às tuas coisas, e
alastrando por todos quantos te rodeiam à força do
amor. que te faria a notícia de que o teu amor
distribui a morte. e se esse homem to dissesse
abertamente, que o teu amor oferece a morte
a quem escolhes. entregarias o coração
numa bandeja de fogo e deixarias sair os monstros
um a um, intoxicados com a frieza com que abdicas
de amar. e deixarias de pensar nos monstros quando
te sentisses tão sozinho, posto no mundo como
quem tem ofício de pedra ou partícula ínfima
de vento.
[...]

valter hugo mãe


[Daughter - Smother (Live on KEXP)]

Noite...

caminhas na lugubridade 
das noites interiores 
como um ser habitado pela loucura, 
consumindo-se no fundo do silêncio 
das dissimulações exteriores 

disseminas a noite nas periferias 
porque carregas dentro de punhos 
pedaços de luz como amoras sáfaras 
frutos podres escorrendo por entre os dedos 
e raios destituídos de luz obscurecendo o mistério


Rui Amaral Mendes in do fundo do silêncio [2007]

domingo, Julho 13, 2014

Hands...

Cast off the clothes 
I wore to death 
They strangle my thoughts 
They steal my breath
[...]
Under these hands [...] I hold my heart...


[Dum Dum Girls - Under these hands (London Sessions)]

Caminho...

Sozinha caminhei no labirinto
Aproximei meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz num dia limpo.


Sophia de Mello Breyner Andresen