segunda-feira, Setembro 15, 2014

Negro...

Só a noite deves deixar falar diante dos olhos: 
só a folha que ouve onde ainda há vento; 
só a voz na gaiola do pássaro. 

Só elas, elas e nada mais. 
Mas a ti mesmo dá um pontapé e diz: sê corajoso, 
sê digno da pedra sobre ti, 
não quebres a amizade com a barba dos mortos, 
junta a flor ao verme, 
iça a tua vela sobre caixões, 
traz para bordo os escaravelhos das campinas mais baixas, 
dá a notícia aos obscuros. 

Dá-lhes a dupla notícia: 
de ti e de ti, 
de ambos os pratos da balança, 
da escuridão que quer entrar, 
da escuridão que deixa entrar. 

Dá a notícia aos escaravelhos, 
dá a notícia aos obscuros, 
junta flor ao verme, 
iça a tua vela sobre caixões, 
deita o teu coração à cabeceira.


Paul Celan


[Cocteau Twins - Persephone]

sábado, Setembro 13, 2014

Teus...

Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos; 
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais; 
as tuas sobrancelas, orla do caminho da tragédia; 
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas; 
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos; 
as tuas faces, campo de armas da madrugada; 
os teus lábios, hóspedes tardios; 
os teus ombros, estátua do esquecimento; 
os teus seios; amigos das minhas serpentes; 
os teus braços, álamos à porta do castelo; 
as tuas mãos, tábuas de juras mortas; 
as tuas ancas, pão e esperança; 
o teu sexo, lei do fogo na floresta; 
as tuas coxas, asas no abismo; 
os teus joelhos, máscaras da tua altivez; 
os teus pés, campo de batalha dos pensamentos; 
as tuas solas, criptas em chamas; 
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.


Paul Celan

quarta-feira, Setembro 10, 2014

Ébrio...

Ebrio de trementina y largos besos, 
estival, el velero de las rosas dirijo, 
torcido hacia la muerte del delgado día, 
cimentado en el sólido frenesí marino.

Pálido y amarrado a mi agua devorante 
cruzo en el agrio olor del clima descubierto, 
aún vestido de gris y sonidos amargos, 
y una cimera triste de abandonada espuma.

Voy, duro de pasiones, montado en mi ola única, 
lunar, solar, ardiente y frío, repentino, 
dormido en la garganta de las afortunadas 
islas blancas y dulces como caderas frescas.

Tiembla en la noche húmeda mi vestido de besos 
locamente cargado de eléctricas gestiones, 
de modo heroico dividido en sueños 
y embriagadoras rosas practicándose en mi. 

Aguas arriba, en medio de las olas externas, 
tu paralelo cuerpo se sujeta en mis brazos 
como un pez infinitamente pegado a mi alma, 
rápido y lento en la energía subceleste.


Pablo Neruda

segunda-feira, Setembro 08, 2014

Política...

Nós somos filhos da época, 
a época é política. 

Todas as tuas, nossas, vossas 
questões diárias, questões nocturnas 
são questões políticas.

Queiras tu ou não
os teus genes têm passado político,
a pele matiz político,
os olhos aspecto político.

Os temas que abordas têm ressonância,
o que calas tem expressão
de um modo ou outro na política.

Passeias pela floresta 
e dás passos políticos 
num chão político.

Também são políticos os versos apolíticos, 
e lá no alto a lua resplandece, 
a lua já objecto não lunar. 
Ser ou não ser, eis a questão.
Mas que questão, responde lá, então. 
Questão política. 

Não tens sequer que ser um ser humano 
para adquirires significado político. 
Basta seres petróleo bruto,
matéria-prima, forragem substancial. 

Ou mesa então de reuniões em cuja forma 
se apoiaram longos meses: 
na qual se negociou a vida e a morte, 
quadrada ou redonda. 

Pessoas entretanto faleceram, 
morreram animais, 
casas arderam 
e campos tornaram-se bravios 
como nos tempos de outrora 
muito menos políticos. 


Wislawa Szymborska

domingo, Setembro 07, 2014

Desejo...

desejo 
a visão do teu corpo lânguido 
deitado sobre o leito do quarto 

vislumbro nas sombras 
que se projectam na penumbra 
o erotismo de dois corpos que se compreendem, 
ansiando o momento do abandono 
às linguagens idiossincráticas 
da natureza metafísica e intemporal 
do desejo. 

lábios tumescidos e ardentes 
aspiram a tez láctea que reveste 
quem és. 

cabelo seríceo 
caindo sobre os ombros 
afagando docemente 
o rosto de menina carente
onde se ante-vê a malícia da 
feminilidade felina de um olhar. 

o contorno delicadadamente decalcado 
dos teus seios 
onde me perco rumo à origem do mundo 
onde experiencias a plétora sensorial. 

e no fim, 
o cheiro do teu corpo depois do amor 
enfim, 
eu em ti, tu em mim, 
um no outro.


Rui Amaral Mendes in Pleroma [2005]

Ninguém...

É porque ninguém me ouve 
e ninguém me vigia 
e ninguém me acolhe 
que a minha imaginação é livre 
e o meu espaço permanentemente novo 
Se algum deus habita este vazio 
é o deus do vazio 
um deus que perdeu a sua densidade enigmática 
e é apenas o espectro de uma radiografia branca

Ergo como um insecto 
as frágeis antenas para o espaço 
Sinto a ébria lucidez 
da minha liberdade 
Posso dizer tudo porque a leveza é transparente 
porque reconheço 
os anéis do silêncio o leque 
de uma linguagem nova 
Na minha garganta abriu-se o poço do oásis 
e o vento da imaginação sublevou-se nas minhas veias 
Sei que habito as palavras com os meus lábios solares 
ou os seus lábios de noite 
É por elas que sinto o sabor do pão e da terra 
e vejo as cintilantes arcas das constelações 
Tudo é puramente imaginado tudo é prodigiosamente real 

Ninguém me segreda os nomes que irei dizer 
com a limpidez do sal ou duros e negros como a obsidiana 
Ninguém me impede que envolva num arco 
a cruel doçura de um sexo vermelho e puro 
Ninguém me proíbe que me multiplique e me dilate 
para ser cada vez mais a floração do espaço 
na sua liberdade de ser cada vez mais espaço 


António Ramos Rosa

sábado, Setembro 06, 2014

Estados...

deixei a luz em
dias como este, conheço o
olhar sem imagens dentro,
sei do frio quando lento
se caminha a rua, quando nada
difere do que a alma
sente, esse fim do
amor, a respiração que 
recua


valter hugo mãe

sexta-feira, Setembro 05, 2014

Constatação...

tanto me faz, doido de nada ou
doido de tudo, sou pasto
do vento e um fogo pálido
onde o mar se vem aquecer

colecciono até o inferno, poema
mais difícil de escrever


valter hugo mãe