Sexta-feira, Novembro 28, 2008

Degraus...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

Terça-feira, Novembro 25, 2008

Numb...

It's late. The rooms are silent. No one's around. Everyone's gone.
I'm the only one left in this wing of the Hospital.
The hallways are strangely peaceful.
I pick up my coat, turn on my iPod and start walking towards the exit.
Tram 16 will take me to my final destination.
Somehow I don't feel numb in this city!

RAM



[U2 - Numb]

Domingo, Novembro 23, 2008

Contra a falsidade e a perfídia...

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Sábado, Novembro 22, 2008

Poesia, Foz Côa, eu e o overbooking...



Um dia, talvez, hei-de perceber a lógica subjacente ao overbooking.
Em 2006, esta cretinice impediu-me de deslocar a Salzburgo, via Frankfurt, conforme previsto, a fim de participar numa reunião científica. Ao invés, vi-me obrigado a viajar para Munique, seguindo depois para Salzburgo de carro, onde cheguei perto das 2 da manhã, exausto.
Agora, quase 2 anos volvidos, voltei a ser vitima deste estúpido fenómeno que não compreendo, e vi-me impossibilitado de efectuar uma breve deslocação a Portugal, a Vila Nova de Foz Côa, onde tinha sido convidado para o Festival de Poesia de Vila Nova de Foz Côa.
Deveria ter participado num debate com alunos e numa sessão de leitura de poesia, com os poetas Amadeu Baptista, José Braga-Amaral, Fernando de Castro Branco, Maria José Quintela, Mário Mendes, Paulo Nogueira e Jorge Velhote.
Pelo que conheço do Jorge Velhote estou certo que foi um sucesso.
Da minha parte, fica a terrivel sensação de - embora por motivos alheios a minha vontade - ter faltado a um compromisso, gorando as expectativas de alguém que ama a poesia.

RAM

Sexta-feira, Novembro 21, 2008

Nada está escrito afinal...

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos

Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal

Mario Cesariny

Terça-feira, Novembro 18, 2008

Questão...

Por mim, creio antes que o homem só por amor-próprio acredita na sua beleza, mas que não é belo de verdade, e o suspeita; se não, porque olha ele com tanto desprezo o rosto do semelhante?

Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont

Segunda-feira, Novembro 17, 2008

Evidência...

Isto que nos rodeia não é um mundo, é matéria para um mundo.

GK Chesterton

Sábado, Novembro 15, 2008

Obrigado I.


[Emily Haines - Our hell]

Terça-feira, Novembro 11, 2008

Paradoxo...

A vida não é ilógica; mas nem por isso deixa de ser uma armadilha para os lógicos. Dá a impressão de ser ligeiramente mais matemática e regular do que é efectivamente; a exactidão da vida é óbvia, mas a falta de exactidão da vida está oculta; e a extravagância da vida está sempre à espreita.

G. K. Chesterton


[Múm - Green grass of tunnel]

Domingo, Novembro 09, 2008

Os lugares...

Tantas vezes os lugares habitam no Homem
e os homens tantas vezes habitam
nos lugares que os habitam, que podia
dizer-se que o cárcere de Sócrates,
estando nele Sócrates, não o era,
como diz Séneca em epístola a Helvia.

Por isso cada lugar nos mostra
uma vida clara e desmedida,
enquanto o tempo oscila e nos oculta
que é curto e ambiguo
porque nos dá a morte e a vida.

E os lugares somente acabam
porque é mortal cada homem
que houve em si algum lugar.

[...]


Fiama Hasse Pais Brandão

Sábado, Novembro 08, 2008

Acordar...

Amsterdam has been kind to me.
The opened curtains unveil another shinny awakening.
The quietness of the canal and the autumn's colors unfold in front of my eyes.
I heat up some of yesterday’s night tea, seat on the sofa, turn on the iPod and eulogize some voices’ sensuality...

RAM


[Cat Power - Love & Communication (acoustic)]

Quinta-feira, Novembro 06, 2008

Ian Curtis e Al Berto...

filamentos de gelatinoso néon invadem a catedral
em celulóide do filme nocturno: arquitectura de asas
abóbadas de vento pássaros de lixo
som
pálpebras de lodo sobre a boca do homem que rasteja
de engate em engate pelas avenidas da memória
e quando encontra a porta de um bar mergulha no inferno
bebe furiosamente
o peito encostado ao zinco sujo duma geração de subúrbio

presentes aqui os jovens, com a canga nos ombros

e o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
o copo estilhaça
os vidros esfregados nos ombros no peito
onde uma veia rebenta para mostrar o radioso canto

depois dança contorce-se embriagado
cobre o rosto suado com a ponta dos dedos espalha
sangue e cuspo construindo a derradeira máscara
cai para dentro do seu próprio labirinto
como se a verticalidade do corpo fosse um veneno

domina-o um estertor
uma corda invisível ata-lhe a voz
não se moverá mais
apesar de nunca ter avistado os órgãos profundos do corpo
sabe que também eles se calaram para sempre

a noite é imensa e já não tem ruídos
a morte vem dos pés sobe à cabeça alastra ferozmente
mas a sua inquietante brancura
só é perceptível na súbita erecção do enforcado

Al Berto



[Al Berto, na Casa Fernando Pessoa]

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

As eleições à distância...

Este dia já vai longo. Começou madrugada dentro com as eleições nos Estados Unidos...
Regressava a "casa" ouvindo Leonard Cohen, quando na Museumplein, junto à embaixada dos Estados Unidos, a letra de "Democracy" ecoa na minha cabeça...

Sail on, sail on
O mighty ship of state!
To the shores of need
Past the reefs of greed
Through the squalls of hate
Sail on, sail on, sail on...

RAM



[Leonard Cohen - Democracy]

Segunda-feira, Novembro 03, 2008

Amesterdão, poesia e lógica: história de um regresso...

Em Março escrevi que iria voltar a Amesterdão, uma cidade feita de contrastes.
O apartamento, na Geldersekade, com a sua enorme sala com vista para o canal, fica entre a Centraal Station e o Nieuwenmarkt, praça localizada na confluência da Chinatown de Amsterdão e do De Waalen (um dos 3 bairros do Red Light District).
De uma das janelas vejo a cúpula de St. Nicolaaskerk.
Agrada-me viver numa cidade cosmopolita e moderna, onde facilmente abdico de pequenos luxos burgueses, apanhando o tram até ao Hospital, enquanto disfruto de um bom livro ou da música que me acompanha no iPod.
Hoje, numa dessas viagens, ao ler a Ortodoxia de G.K. Chesterton, senti vontade de regressar também ao blog :

"Aceitar a realidade é um exercício, compreender a realidade é um esforço. O poeta apenas deseja a exaltação e a expansão, um mundo onde possa expandir-se. O poeta pretende apenas meter a cabeça nos céus. É o lógico que quer meter os céus na cabeça. E é a cabeça do lógico que rebenta."

RAM