Tudo quanto nos é vedado, isso é o que mais desejamos; o ladrão,
é o próprio cuidado que o chama; poucos amam o que outro consente.
E não é graças à sua beleza que ela é aprazível, mas graças ao amor de seu marido;
há um não sei quê que te cativou, eis o que pensam.
Ovídio
Domingo, Dezembro 28, 2008
Sábado, Dezembro 27, 2008
The wisdom of the Classics...
Intransigente marido! Ao pores alguém de vigia à ternura da tua amada,
nada consegues; é pelo seu carácter que cada uma tem de ser guardada.
Se há uma que, sem ter medo de nada, é casta, essa, por certo, é casta;
aquela que é por lhe não ser consentido que o não faz, essa o faz;
posto que lhe guardes bem o corpo, o coração é adúltero;
não pode ser guardada, se o não quiser, mulher alguma,
nem serás capaz de preservar o corpo, ainda que tudo mantenhas fechado;
depois de tudo fechares, lá dentro há-de estar a traição.
Aquela a quem é consentido pecar peca menos; a própria permissão
torna as sementes do vício mais preguiçosas.
Desiste, acredita em mim, de estimular o pecado, proibindo-o;
com o teu consentimento, mais facilmente o hás-de vencer.
Ovídio
nada consegues; é pelo seu carácter que cada uma tem de ser guardada.
Se há uma que, sem ter medo de nada, é casta, essa, por certo, é casta;
aquela que é por lhe não ser consentido que o não faz, essa o faz;
posto que lhe guardes bem o corpo, o coração é adúltero;
não pode ser guardada, se o não quiser, mulher alguma,
nem serás capaz de preservar o corpo, ainda que tudo mantenhas fechado;
depois de tudo fechares, lá dentro há-de estar a traição.
Aquela a quem é consentido pecar peca menos; a própria permissão
torna as sementes do vício mais preguiçosas.
Desiste, acredita em mim, de estimular o pecado, proibindo-o;
com o teu consentimento, mais facilmente o hás-de vencer.
Ovídio
Quinta-feira, Dezembro 25, 2008
O modo e o tempo...
Quem nos garante que estamos vivos
que sequer somos o que fingimos
se atravessamos ruas e praças
sempre com 'spadas entre as espáduas
e com serpentes em torno aos braços
e com cilícios em vez de cílios
e com os sonhos desarrumados
pelos sorrisos e os compromissos
desta comédia de celebrar-te
assegurando que não existes
Quem nos garante que estamos vivos
Ou não seremos somente o lixo
da grande roda que nos esmaga
da grande garra que nos agarra
do grande grito que nem gritado
por todos juntos será ouvido
Quem nos garante se neste espaço
que nos separa só o sigilo
preenche as pausas a grande pausa
de recearmos que tu existas
Quem nos garante que estamos vivos
se atravessando ruas e rios
portas e portos pontes e praças
só deparamos com os esgares
que já tiveram as nossas faces
à mesma hora nos mesmos sítios
Quem nos garante que sob as lajes
de outras cidades de outros jazigos
neste momento ressuscitados
não afirmamos que Tu existes
David Mourão-Ferreira
que sequer somos o que fingimos
se atravessamos ruas e praças
sempre com 'spadas entre as espáduas
e com serpentes em torno aos braços
e com cilícios em vez de cílios
e com os sonhos desarrumados
pelos sorrisos e os compromissos
desta comédia de celebrar-te
assegurando que não existes
Quem nos garante que estamos vivos
Ou não seremos somente o lixo
da grande roda que nos esmaga
da grande garra que nos agarra
do grande grito que nem gritado
por todos juntos será ouvido
Quem nos garante se neste espaço
que nos separa só o sigilo
preenche as pausas a grande pausa
de recearmos que tu existas
Quem nos garante que estamos vivos
se atravessando ruas e rios
portas e portos pontes e praças
só deparamos com os esgares
que já tiveram as nossas faces
à mesma hora nos mesmos sítios
Quem nos garante que sob as lajes
de outras cidades de outros jazigos
neste momento ressuscitados
não afirmamos que Tu existes
David Mourão-Ferreira
Quarta-feira, Dezembro 24, 2008
Não devia, não devia...
É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.
Eugénio de Andrade
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.
Eugénio de Andrade
Terça-feira, Dezembro 23, 2008
Lonely people...
Mais de 5 anos passaram desde que iniciei o meu trabalho como voluntário na ONGD Médicos do Mundo, inicialmente integrando as equipas de rua do projecto "Porto Escondido" e ultimamente na Unidade Habitacional de Santo António.
Têm sido anos caracterizados pelo contacto com os fenómenos das carências sócio-económicas extremas e das migrações de um sociedade cada vez mais global, mas, acima de tudo, com a alienação humana subjacente a estados de solidão extrema numa sociedade cada vez mais frenética e individualista.
RAM
[The Beatles - Eleanor Rigby]
Têm sido anos caracterizados pelo contacto com os fenómenos das carências sócio-económicas extremas e das migrações de um sociedade cada vez mais global, mas, acima de tudo, com a alienação humana subjacente a estados de solidão extrema numa sociedade cada vez mais frenética e individualista.
RAM
[The Beatles - Eleanor Rigby]
Sábado, Dezembro 20, 2008
Coisa pouca...
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Eugénio de Andrade
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Eugénio de Andrade
Quarta-feira, Dezembro 17, 2008
Recollections...
... from an happy past!
RAM
The times we had
Oh, when the wind would blow with rain and snow
Were not all bad
We put our feet just where they had, had to go
Never to go
The shattered soul
Following close but nearly twice as slow
In my good times
There were always golden rocks to throw
at those who admit defeat too late
Those were our times, those were our times
And I will love to see that day
That day is mine
When she will marry me outside with the willow trees
And play the songs we made
They made me so
And I would love to see that day
Her day was mine
Beirut
[Beirut - Postards from Italy]
RAM
The times we had
Oh, when the wind would blow with rain and snow
Were not all bad
We put our feet just where they had, had to go
Never to go
The shattered soul
Following close but nearly twice as slow
In my good times
There were always golden rocks to throw
at those who admit defeat too late
Those were our times, those were our times
And I will love to see that day
That day is mine
When she will marry me outside with the willow trees
And play the songs we made
They made me so
And I would love to see that day
Her day was mine
Beirut
[Beirut - Postards from Italy]
Terça-feira, Dezembro 16, 2008
Santa ironia...
Hoje foi-me concedida a oportunidade de me deliciar com mais um exemplo paradigmático do lodo em que vegetam - alguns d - os que tem pretensões a ascenderem a elites deste triste País. Uma espécie de transubstanciação de um vómito ácido em prosa!
Ironia das ironias, alguém insurgindo-se, e bem, contra a mediocridade de determinados comportamentos – que infelizmente vão corroendo as fundações de Portugal – acaba, inadvertidamente, por esboçar, com traços de uma exactidão quase cirúrgica, um auto-retrato para cuja perfeição absoluta teria contribuído um cuidado acrescido do autor em não pecar por defeito!
Os homens vulgares são assim: tendo vistas curtas, dificilmente divisam além do nariz!
RAM
Ironia das ironias, alguém insurgindo-se, e bem, contra a mediocridade de determinados comportamentos – que infelizmente vão corroendo as fundações de Portugal – acaba, inadvertidamente, por esboçar, com traços de uma exactidão quase cirúrgica, um auto-retrato para cuja perfeição absoluta teria contribuído um cuidado acrescido do autor em não pecar por defeito!
Os homens vulgares são assim: tendo vistas curtas, dificilmente divisam além do nariz!
RAM
Sexta-feira, Dezembro 12, 2008
Out of the mainstream...
you survived yourself
you survived inside the lost world
[No-Man - Truenorth]
you survived inside the lost world
[No-Man - Truenorth]
Segunda-feira, Dezembro 08, 2008
Restos...
Estes quantos traços que se parecem com a sombra
(às mãos devemos também a solidão implacável)
talvez nem mereçam essa forma de lentidão: a leitura
escrevi-os num jardim onde patos grasnam ao frio
e folhas se despenham atrás do vento
Sobre a terra sem nenhum rumor
um verso é sempre tão pouco
em redor do que se pode observar
tenho medo pois de repente
a tua respiração ficou demasiado perto
da essência instável, dissonante
E isso é o que nos resta
José Tolentino Mendonça
(às mãos devemos também a solidão implacável)
talvez nem mereçam essa forma de lentidão: a leitura
escrevi-os num jardim onde patos grasnam ao frio
e folhas se despenham atrás do vento
Sobre a terra sem nenhum rumor
um verso é sempre tão pouco
em redor do que se pode observar
tenho medo pois de repente
a tua respiração ficou demasiado perto
da essência instável, dissonante
E isso é o que nos resta
José Tolentino Mendonça
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