Sexta-feira, Junho 05, 2009

Shanghai e outras ausências...

Tenho vivido no epicentro dos dias - semanas - alimentado pela adrenalina dos desafios que se atravessam no caminho. Agora, pelo menos, mais do que é habitual.
Viagem a Shanghai em demanda das mais recentes evoluções da ciência e da arte (assim a designam), levando na bagagem o meu contributo, apenas para, mais uma vez, sofrer o terrível anti-clímax do regresso a Portugal.
Tenho diagnóstico feito, embora tardiamente confirmado: sofro de "depressão de regresso", estado patológico que desisti de combater e que agrava o meu estado de workaholic natural.
Tristemente constato que cada vez gosto mais do meu País... lá fora.
Os dias sucedem-se a um ritmo alucinante, como se trouxesse Pudong nas veias.
Contrariamente ao sucedido com Tom Baxter, em The Purple Rose of Cairo, em terras ondes impera o mandarim, fui eu que me senti transportado para dentro de Lost in Translation. Uma espécie de Bob Harris, embora sem Charlotte.


[Brian Ferry - More than this (Lost in Translation)]

Acossado pela insónia decorrente do jet lag, matei lentamente o tempo embrenhando-me nas palavras de um agonizante Miguel de Unamuno: "E o que mais nos une a cada um consigo próprio, aquilo que faz a unidade íntima da nossa vida, são as nossas discórdias íntimas, as contradições interiores das nossas discórdias."

A magnífica Shanghai, foi local de reencontros: uma espécie de Presente dando especial sentido às opções do Passado.
Mergulhei na opulência de uma sociedade capitalista do século XXI, enxertada sobre conceptualizações filosóficas cuja génese remonta ao longínquo século XIX.
Na curta viagem de 7 minutos que liga os 30km que separam a cidade do aeroporto, a bordo do fabuloso Maglev, um colega belga questiona-me sobre se ainda acredito na politica. Discutíamos o mundo. Respondo-lhe que acredito na cidadania de corpo inteiro.
Dir-se-ia que foi uma fuga para a frente. Talvez!
Em Frankfurt compro "The Conscience of a Liberal" de Paul Krugman, cujas crónicas no New York Times tanto aprecio . Como é interessante ler reflexões escritas sem as grilhetas de timings eleitoralistas.
A chegada a Portugal presenteia-me com plurais Europeus, homens que subscrevem por baixo, homens que não brincam, mulheres ditas diferentes ou apenas com esperança. Temos dedos acusatórios prometendo uma sempre adiada justiça e puristas que pugnam pela meritrocracia sociológica.
E eu sinto-me confuso. Muito confuso.

Da Europa, resquícios. Do País, ausência de ideias.
Apenas reencontro um amor pela Liberdade, resgatada num acto primacial de valorização daquilo que nos foi negado. Liberdade de pensar. De verbalizar o pensamento. De materializar as palavras.
Ironicamente, na Shanghai pela qual me apaixonei, senti, essencialmente, uma alienante desvalorização do amor mais primordial.





RAM

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