Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009

Recordação...

Do tempo em que as palavras e a música estabeleciam simbioses perfeitas.


RAM


Well, I'll be damned
Here comes your ghost again
But that's not unusual
It's just that the moon is full
And you happened to call
And here I sit
Hand on the telephone
Hearing a voice I'd known
A couple of light years ago
Heading straight for a fall

As I remember your eyes
Were bluer than robin's eggs
My poetry was lousy you said
Where are you calling from?
A booth in the Midwest
Ten years ago I bought you some cufflinks
You brought me something
We both know what memories can bring
They bring diamonds and rust

Well, you burst on the scene, already a legend
The unwashed phenomenon
The original vagabond
You strayed into my arms
And there you stayed
Temporarily lost at sea
The Madonna was yours for free
Yes, the girl on the half-shell
Could keep you unharmed

Now I see you standing with brown leaves falling around
And snow in your hair
Now you're smiling out the window of that crummy hotel
Over Washington Square
Our breath comes out white clouds
Mingles and hangs in the air
Speaking strictly for me
We both could have died then and there

Now you're telling me you're not nostalgic
Then give me another word for it
You who are so good with words
And at keeping things vague
'Cause I need some of that vagueness now
It's all come back too clearly
Yes, I once loved you dearly
And if you're offering me diamonds and rust
I've already paid


Joan Baez


[Joan Baez - Diamonds and Rust (Live)]

Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

Mão...

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração.
[...]


Herberto Helder

Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009

Esse lugar...

Si me dicen que estás al otro lado
de un puente, por extraño que parezca
que estés al otro lado y que me esperes,
yo cruzaré ese puente.
Dime cuál es el puente que separa
tu vida de la mía,
en qué hora negra, en qué ciudad lluviosa,
en qué mundo sin luz está ese puente,
y yo lo cruzaré.

Amalia Bautista

Domingo, Fevereiro 22, 2009

Esperança...

A pequena esperança avança no meio das duas irmãs mais velhas
e nem sequer se repara nela.
No caminho da salvação, no caminho carnal, no caminho áspero da salvação,
no percurso interminável, no percurso, entre as duas irmãs a pequena esperança
Avança.
No meio das irmãs mais velhas!
A que é casada.
E a que é mãe.
E só se dá atenção, o povo cristão só dá atenção às duas irmãs mais velhas.
A primeira e a última.
Que acodem ao urgente.
Ao tempo de agora.
Ao momentâneo instante que passa.
O povo cristão só vê as duas irmãs mais velhas,
não tem olhos senão para as duas irmãs mais velhas.
A que está à direita e a que está à esquerda.
E a bem dizer não vê a que está no meio.
A pequena, a que ainda anda na escola.
E que caminha.
Perdida nas saias das irmãs.
E facilmente crê que são as duas grandes que levam a pequena pela mão.
No meio.
Entre elas duas.
Para a fazerem percorrer esse caminho áspero da salvação.
Cegos que pelo contrário não vêem
Que é ela que no meio arrasta as irmãs mais velhas!
E que sem ela elas nada seriam.
Senão duas mulheres já idosas.
Duas mulheres de certa idade.
Amachucadas pela vida.

É ela, essa miúda, que tudo arrasta.

Porque a Fé só vê o que é.
E ela, ela vê o que será.
A Caridade só ama o que é.
E ela, ela ama o que será.


Charles Péguy


[Slumdog Millionaire - Train scene]

Sábado, Fevereiro 21, 2009

Liverpool Street Station...

Yesterday I received this in my mailbox.
Life's for sharing!
I couldn't agree more.

RAM


[T-Mobile Dance]

Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

Manifesto poético...

Estes quantos traços que se parecem com a sombra
(às mãos devemos também a solidão implacável)
talvez nem mereçam essa forma de lentidão: a leitura
escrevi-os num jardim onde patos grasnam ao frio
e folhas se despenham atrás do vento

Sobre a terra sem nenhum rumor
um verso é sempre tão pouco
em redor do que se pode observar
tenho medo pois de repente
a tua respiração ficou demasiado perto
da essência instável, dissonante

E isso é tudo o que nos resta


José Tolentino Mendonça

Domingo, Fevereiro 15, 2009

Diz-me...

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge de Sena

Sábado, Fevereiro 14, 2009

Um pouco de humor...

Versão portuguesa do slogan de Obama:

"YES, WEEKEND!"

Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

Eluana, religião, ética e conservadorismo...

A morte da cidadã italiana Eluana Englaro tem sido explorada, ad nauseum e de forma desonesta, pelos sectores mais reaccionários da sociedade mundial como um exemplo da barbárie sociológica que resultará das putativas alterações dos paradigmas respeitantes à vida humana.

Em tempos, um bom homem conservador, que ainda hoje merece a minha admiração, por se tratar de alguém cujos actos foram sempre marcados por uma enorme compaixão para com o seu semelhante, teve o desassombro de escrever o seguinte:

"Distinta da eutanásia é a decisão de renunciar ao chamado « excesso terapêutico », ou seja, a certas intervenções médicas já inadequadas à situação real do doente, porque não proporcionadas aos resultados que se poderiam esperar ou ainda porque demasiado gravosas para ele e para a sua família. Nestas situações, quando a morte se anuncia iminente e inevitável, pode-se em consciência « renunciar a tratamentos que dariam somente um prolongamento precário e penoso da vida, sem, contudo, interromper os cuidados normais devidos ao doente em casos semelhantes ». Há, sem dúvida, a obrigação moral de se tratar e procurar curar-se, mas essa obrigação há-de medir-se segundo as situações concretas, isto é, impõe-se avaliar se os meios terapêuticos à disposição são objectivamente proporcionados às perspectivas de melhoramento. A renúncia a meios extraordinários ou desproporcionados não equivale ao suicídio ou à eutanásia; exprime, antes, a aceitação da condição humana defronte à morte."

Como pode a hierarquia da Igreja permanecer cega à evidência de tal argumento?
Eluana não foi "vítima" de eutanásia. Eluana estava a ser "vítima" de distanásia.

Questiono-me: que direito assiste aos membros do Senado Italiano de manipularem as leis sentados nas suas confortáveis cadeiras, imunes ao sofrimento efectivo de uma cidadã e daqueles que, dia-após-dia, assistem ao progressivo definhamento da jovem de outrora, até apenas restar um ténue esboço de um cadáver suportado por máquinas?

Num outro registo, uma banda que marcou a minha adolescência nos idos anos 80, os The Sound, clamava numa das suas músicas:

"From the safest places, come the bravest words"

Jamais esquecerei as palavras de João Lobo Antunes numa das suas crónicas em "Memórias de Nova Iorque e Outros Ensaios":

"Nunca a pratiquei, mas hoje lamento, pelo menos uma vez, não ter tido a coragem de ter aliviado o sofrimento de um ente querido na agonia de uma falta de ar intratável. Ofereci-lhe simplesmente uma torrente silenciosa de lágrimas. Será que ele, em trágica inversão dos papéis, terá pensado como o aviador de Saint-Exupery frente ao pequeno príncipe inconsolável: "Não sabia mais que lhe dizer [...] Não sabia como chegar até ele... É tão misterioso o país das lágrimas"?

Definições no crespúsculo? Meus caros, são transições! Como podemos definir limites estanques em interstícios temporais, espaciais, físicos e morais?

E esta, esta é uma Medicina do crespúsculo, de despedida!


RAM

Domingo, Fevereiro 08, 2009

Estado de alma...

Estás a chorar? Eu to pergunto, ó rei das neves e das névoas. Não te vejo lágrimas no rosto, belo como a flor do cacto, e tens as pálpebras secas como o leito da torrente: mas distingo no fundo dos teus olhos uma tina cheia de sangue onde a tua inocência ferve, mordida no pescoço por um escorpião dos maiores.

Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont

Domingo, Fevereiro 01, 2009

La vida...

El mundo avanza en círculos, me dicen,
o es más bien que se mueve en espiral
y por tanto no avanza, se concentra
o se dispersa interminablemente,
sin un fin ni un principio, sin objecto
y sin sentido, sin porqué ni adónde.
La vida, entonces, vuelve a reencontrarse
con lo que fue su origen, su semilla,
la medida de todos sus fracasos,
el hueco donde caben nuestros miedos
y al que se ajustan nuestras esperanzas.
Y dando por supuesto que las cosas
sean así, tan crudas y tan frágiles,
dime qué hacemos tú y yo aquí parados,
soportando el embate de la nada,
el azote que nunca merecimos
o ese dardo llamado indiferencia
o mala suerte o época difícil.
Dime, aunque tengas que mentirme un poco,
que no estamos perdidos, que aún hay grietas
por las que puede entrar algún consuelo,
que esto no es otro de esos callejones
sin salida y sin luz donde espantarnos,
donde perder la fe y ganar el llanto.
Convénceme, prométeme la vida.

Amalia Bautista