o amor aumenta com o amarelecimento do linho
maior quietude rodeia agora a casa lunar
soçobram do fundo dos espelhos submersos os instrumentos
de muitos e delicados trabalhos
repousam sobre a erva para sempre
só o desejo dalguma eternidade despertaria o terno arado
mas a vida tropeça nos húmidos orgãos da terra
as selvagens flores afligir-te-ão o olhar
por isso inventaremos o necessário ciclo do outono
a noite dilata a viagem
pressentimos a nervosa luta dos corpos contra a velhice
mas nada há a fazer
resta-nos descer com as raízes do castanheiro
até onde se ramificam as primeiras águas e se refaz o desejo
as bocas erguem-se
procuram um rápido beijo no éter da casa
Al Berto
Terça-feira, Março 31, 2009
Domingo, Março 29, 2009
29 de Março de 1809
Que importam pontes
imponderáveis
unindo sombras
galgando escarpas
compondo um todo
articulado
de ombros com ombros
braços com braços
se vem a noite
enregelar-nos
pôr-nos defronte
desta verdade
de nem as pontes
recuperarem
braços sem ombros
ombros sem braços
David Mourão-Ferreira
imponderáveis
unindo sombras
galgando escarpas
compondo um todo
articulado
de ombros com ombros
braços com braços
se vem a noite
enregelar-nos
pôr-nos defronte
desta verdade
de nem as pontes
recuperarem
braços sem ombros
ombros sem braços
David Mourão-Ferreira
Quinta-feira, Março 26, 2009
Of love and life...
But do thy worst to steal thyself away;
For term of life thou art assured mine,
and life no longer than thy love will stay,
For it depends upon that love of thine.
Then need I not to fear the worst of wrongs,
When in the least of them my life hath end;
I see a better state to me belongs
Than that which on thy humour doth depend.
Thou canst not vex me with inconstant mind,
Since that my life on thy revolt doth lie.
O what a happy title do I find,
Happy to have thy love, happy to die!
But what's so blessed fair that fears no blot?
Thou mayst be false, and yet I know it not.
William Shakespeare
For term of life thou art assured mine,
and life no longer than thy love will stay,
For it depends upon that love of thine.
Then need I not to fear the worst of wrongs,
When in the least of them my life hath end;
I see a better state to me belongs
Than that which on thy humour doth depend.
Thou canst not vex me with inconstant mind,
Since that my life on thy revolt doth lie.
O what a happy title do I find,
Happy to have thy love, happy to die!
But what's so blessed fair that fears no blot?
Thou mayst be false, and yet I know it not.
William Shakespeare
Quarta-feira, Março 25, 2009
Dieta...
Me acosté sin cenar, y aquella noche
soñe que te comía el corazón.
Supongo que sería por el hambre.
Mientras yo devoraba aquella fruta,
que era dulce y amarga al mismo tiempo,
tú me basabas con los labios fríos,
más fríos y más pálidos que nunca.
Supongo que sería por la muerte.
Amalia Bautista
soñe que te comía el corazón.
Supongo que sería por el hambre.
Mientras yo devoraba aquella fruta,
que era dulce y amarga al mismo tiempo,
tú me basabas con los labios fríos,
más fríos y más pálidos que nunca.
Supongo que sería por la muerte.
Amalia Bautista
Sábado, Março 21, 2009
E hoje a poesia tem o seu dia...
buganvílias espraiam-se pelas paredes da casa
que alberga a tua existência
invocando recordações
do ar impregnado pelo
suave e doce eflúvio que
exalava do teu corpo quando
o ar que invejosamente te acariciava o cabelo
aflorou o segundo dos sentidos com que te percepcionei
cruzamo-nos num fim de tarde
onde me deleitei na visão do mimetismo
de um violoncelo
cujas cordas ansiava tocar
em doces notas que haveriam de
ressoar na flor que se entregava
a uma primavera a despontar
o porte doce e cuidadosamente delineado
como se retratando as suaves pinceladas de
um exímio pintor conhecedor da beleza
e perfeição contidos nos mais ínfimos pormenores
da anatomia humana
beleza captada no ar
na música
qual caleidoscópio
e vertida na sensualidade de
um beijo que aflora a carne em chamas
dos meus lábios
Rui Amaral Mendes [Na luz do crepúsculo...]
que alberga a tua existência
invocando recordações
do ar impregnado pelo
suave e doce eflúvio que
exalava do teu corpo quando
o ar que invejosamente te acariciava o cabelo
aflorou o segundo dos sentidos com que te percepcionei
cruzamo-nos num fim de tarde
onde me deleitei na visão do mimetismo
de um violoncelo
cujas cordas ansiava tocar
em doces notas que haveriam de
ressoar na flor que se entregava
a uma primavera a despontar
o porte doce e cuidadosamente delineado
como se retratando as suaves pinceladas de
um exímio pintor conhecedor da beleza
e perfeição contidos nos mais ínfimos pormenores
da anatomia humana
beleza captada no ar
na música
qual caleidoscópio
e vertida na sensualidade de
um beijo que aflora a carne em chamas
dos meus lábios
Rui Amaral Mendes [Na luz do crepúsculo...]
Quarta-feira, Março 18, 2009
Uma pérola...
"- Todo o ser humano, ao relacionar-se com outro, transforma-o, e, entre amantes, a transformação é muito mais profunda.
- Com uma diferença, meu amigo: as transformações de um homem provocadas por uma mulher que ama, ou vice-versa, estão implícitas no carácter do transformado, são possibilidade que a presença do amante suscita e realiza."
Gonzalo Torrente Ballester
- Com uma diferença, meu amigo: as transformações de um homem provocadas por uma mulher que ama, ou vice-versa, estão implícitas no carácter do transformado, são possibilidade que a presença do amante suscita e realiza."
Gonzalo Torrente Ballester
Domingo, Março 15, 2009
London and back...
Regressei hoje de Londres.
Embora goste imenso desta cidade, confesso que o ascendente exercido sobre mim por Amesterdão permanece incólume: em ambas encontro o cosmopolitismo das grandes capitais europeias, mas esta última conserva uma dimensão quase que intimista que me atrai e à qual regresso com um prazer acrescido. De certa forma, talvez a sinta mais próxima do meu Porto...
Ontem, depois da deslocação até ao Royal College of Physicians, em Regent's Park, no Tube, não resisti a percorrer a pé os breves quilómetros que me conduziriam de regresso ao local onde estava localizado o hotel, em Sussex Gardens Road, perto de Hyde Park.
Um breve percurso cheio de história, num fim de tarde fantástico. A sight for sore eyes, I must say!
Sigo por Marylebone Road e junto à Royal Academy of Music Mike Scott interpela-me no iPod:
"Well here we are in a special place
what are you gonna do here?
Now we stand in a special place
what will you do here?
What show of soul are we gonna get from you?
It could be deliverance, or history
under these skies so blue
could be something true,
But if I know you you'll bang the drum
like monkeys do
Here we are in a fabulous place
What are you gonna dream here?
We are standing in this fabulous place
What are you gonna play here?
I know you love the high life, you love to leap around
You love to beat your chest and make your sound
but not here man - this is sacred ground
with a Power flowing through
[...]"
[The Waterboys - Don't bang the drum]
Estranhamente sinto que tardo em dar resposta objectiva a interpelação antiga.
Derivo pela cidade, fazendo valer a promessa feita ao meu triste sentido de orientação de não o trair. Não é grave: tenho Paddington como ponto de referência.
Passo pelo St. Mary's Hospital do Imperial College of London, onde uma inscrição numa das paredes resgasta das brumas da memória a localização do laboratório onde ocorreu uma das grandes descobertas da Medicina do século XX: a da penicilina, por Alexander Fleming.
Segue-se Paddington e, finalmente, Sussex Gardens.
Janto com um amigo e com os 3 adoráveis mais jovens elementos da sua prole. A noite londrina recebe 5 dos seus em breve passeio pelas ruas que conduzem vida ao seu seio - sim! afinal, sou um cidadão do mundo :) - e eis que a filhota do meio estende os braços para mim a pedir colo: "I'm sleepy!" Impossível recusar um pedido tão pungente e sincero, nas palavras e no olhar.
Isto sim, "is a sight for sore eyes... and heart!"
Hoje novamente o Tube até Liverpool Street e ligação para o aeroporto.
No percurso, as palavras dos Beach House conduzem-me a breve repouso nos braços de Morfeu:
"Let's go on pretending that the light
is neverending -
we still have the summers
to be good to one another"
[Beach House - All the years]
Embora goste imenso desta cidade, confesso que o ascendente exercido sobre mim por Amesterdão permanece incólume: em ambas encontro o cosmopolitismo das grandes capitais europeias, mas esta última conserva uma dimensão quase que intimista que me atrai e à qual regresso com um prazer acrescido. De certa forma, talvez a sinta mais próxima do meu Porto...
Ontem, depois da deslocação até ao Royal College of Physicians, em Regent's Park, no Tube, não resisti a percorrer a pé os breves quilómetros que me conduziriam de regresso ao local onde estava localizado o hotel, em Sussex Gardens Road, perto de Hyde Park.
Um breve percurso cheio de história, num fim de tarde fantástico. A sight for sore eyes, I must say!
Sigo por Marylebone Road e junto à Royal Academy of Music Mike Scott interpela-me no iPod:
"Well here we are in a special place
what are you gonna do here?
Now we stand in a special place
what will you do here?
What show of soul are we gonna get from you?
It could be deliverance, or history
under these skies so blue
could be something true,
But if I know you you'll bang the drum
like monkeys do
Here we are in a fabulous place
What are you gonna dream here?
We are standing in this fabulous place
What are you gonna play here?
I know you love the high life, you love to leap around
You love to beat your chest and make your sound
but not here man - this is sacred ground
with a Power flowing through
[...]"
[The Waterboys - Don't bang the drum]
Estranhamente sinto que tardo em dar resposta objectiva a interpelação antiga.
Derivo pela cidade, fazendo valer a promessa feita ao meu triste sentido de orientação de não o trair. Não é grave: tenho Paddington como ponto de referência.
Passo pelo St. Mary's Hospital do Imperial College of London, onde uma inscrição numa das paredes resgasta das brumas da memória a localização do laboratório onde ocorreu uma das grandes descobertas da Medicina do século XX: a da penicilina, por Alexander Fleming.
Segue-se Paddington e, finalmente, Sussex Gardens.
Janto com um amigo e com os 3 adoráveis mais jovens elementos da sua prole. A noite londrina recebe 5 dos seus em breve passeio pelas ruas que conduzem vida ao seu seio - sim! afinal, sou um cidadão do mundo :) - e eis que a filhota do meio estende os braços para mim a pedir colo: "I'm sleepy!" Impossível recusar um pedido tão pungente e sincero, nas palavras e no olhar.
Isto sim, "is a sight for sore eyes... and heart!"
Hoje novamente o Tube até Liverpool Street e ligação para o aeroporto.
No percurso, as palavras dos Beach House conduzem-me a breve repouso nos braços de Morfeu:
"Let's go on pretending that the light
is neverending -
we still have the summers
to be good to one another"
[Beach House - All the years]
Quarta-feira, Março 11, 2009
Encontros...
Não fui margem sem outra margem onde ligar os braços
Mas fui o tempo solto para entrançar os meus cabelos
E o movimento dos teus pés descalços
Não fui a solidão inteira nem reclusa
Para o único repouso entre o silêncio
Nem fui a flor exausta defendendo-se
De toda a mão que a quis despetalar
Não fui a casa que a si mesma se abrigou
Nem a morada que nunca se acolheu
Mas o tempo a pedir que me deixasse
Naquilo que não fui vim encontrar-me
E sempre que te vi recomecei
Daniel Faria
Mas fui o tempo solto para entrançar os meus cabelos
E o movimento dos teus pés descalços
Não fui a solidão inteira nem reclusa
Para o único repouso entre o silêncio
Nem fui a flor exausta defendendo-se
De toda a mão que a quis despetalar
Não fui a casa que a si mesma se abrigou
Nem a morada que nunca se acolheu
Mas o tempo a pedir que me deixasse
Naquilo que não fui vim encontrar-me
E sempre que te vi recomecei
Daniel Faria
Domingo, Março 08, 2009
Nay...
Não chores mais por mim quando eu morrer
do que ouças sino lúgubre que diz
aviso ao mundo de que eu fui viver,
ido do mundo vil, com vermes vis.
Nem o ler deste verso te recorde
a mão que o escreveu, pois te amo tanto,
que em teu doce pensar eu não acorde
se o pensar em mim te causar pranto.
Ou se (digo eu) olhares esta linha,
quando eu já for (talvez) lama abatida,
não repitas o nome que eu já tinha
e caia o teu amor com a minha vida.
Se não o mundo ao ver-te em luto pôr
há-de troçar de ti quando eu me for.
William Shakespeare
do que ouças sino lúgubre que diz
aviso ao mundo de que eu fui viver,
ido do mundo vil, com vermes vis.
Nem o ler deste verso te recorde
a mão que o escreveu, pois te amo tanto,
que em teu doce pensar eu não acorde
se o pensar em mim te causar pranto.
Ou se (digo eu) olhares esta linha,
quando eu já for (talvez) lama abatida,
não repitas o nome que eu já tinha
e caia o teu amor com a minha vida.
Se não o mundo ao ver-te em luto pôr
há-de troçar de ti quando eu me for.
William Shakespeare
Quinta-feira, Março 05, 2009
Beaten...
Por estes dias tenho regressado amiúde à fabulosa banda de Matt Johnson, os The The.
Não se trata de um qualquer sentimento bacoco de saudosismo ou nostalgia. Afinal, não podemos ser nostálgicos face a algo que escapa às grilhetas do passado sitiado e percorre as veredas da intemporalidade.
RAM
When you cast your eyes upon the skylines
Of this once proud nation
Can you sense the fear and the hatred
Grwoing in the hearts of its population
And our youth, oh youth, are being seduced
by the greedy hands of politics and half truths
The beaten generation, the beaten generation
Reared on a diet of prejudice and mis-information
The beaten generation, the beaten
Open your eyes, open your imagination
We're being sedated by the gasoline fumes
and hypnotised by the satellites
Into believing what is good and what is right
You may be worshipping the temples of mammon
Or lost in the prisons of religion
But can you still walk back to happiness
When you've nowhere left to run?
And if they send in the special police
To deliver us from liberty and keep us from peace
Then won't the words sit ill upon their tongues
when they tell us justice is being done
and that freedom lives in the barrels of a warm gun
Não se trata de um qualquer sentimento bacoco de saudosismo ou nostalgia. Afinal, não podemos ser nostálgicos face a algo que escapa às grilhetas do passado sitiado e percorre as veredas da intemporalidade.
RAM
When you cast your eyes upon the skylines
Of this once proud nation
Can you sense the fear and the hatred
Grwoing in the hearts of its population
And our youth, oh youth, are being seduced
by the greedy hands of politics and half truths
The beaten generation, the beaten generation
Reared on a diet of prejudice and mis-information
The beaten generation, the beaten
Open your eyes, open your imagination
We're being sedated by the gasoline fumes
and hypnotised by the satellites
Into believing what is good and what is right
You may be worshipping the temples of mammon
Or lost in the prisons of religion
But can you still walk back to happiness
When you've nowhere left to run?
And if they send in the special police
To deliver us from liberty and keep us from peace
Then won't the words sit ill upon their tongues
when they tell us justice is being done
and that freedom lives in the barrels of a warm gun
[The The - The Beat(en) generation]
Quarta-feira, Março 04, 2009
Projecção...
Se escrevo retiro-me do presente
mas para nele circular
e mesmo que as minhas flechas se precipitem no deserto
uma instantânea torre
mostra-me num vislumbre o rosto amado
na sua fragilidade indemne
de lâmpada do tempo
e de pura eternidade de um instante solar
E embora num voo incerto estou no centro
da liberdade viva que projecto
e sob a cintilante arca terrestre
em que a vida se renova em sal e polén
e em plena plenitude de porosa nudez
Se é verdade que cada pista segue seu caminho solitário
e que todas elas se encontram no deserto
na morte
ou no silêncio de Deus
eu sigo o murmúrio da saudade perfeita
acesa nos olhos de uma serpente submersa
António Ramos Rosa
mas para nele circular
e mesmo que as minhas flechas se precipitem no deserto
uma instantânea torre
mostra-me num vislumbre o rosto amado
na sua fragilidade indemne
de lâmpada do tempo
e de pura eternidade de um instante solar
E embora num voo incerto estou no centro
da liberdade viva que projecto
e sob a cintilante arca terrestre
em que a vida se renova em sal e polén
e em plena plenitude de porosa nudez
Se é verdade que cada pista segue seu caminho solitário
e que todas elas se encontram no deserto
na morte
ou no silêncio de Deus
eu sigo o murmúrio da saudade perfeita
acesa nos olhos de uma serpente submersa
António Ramos Rosa
Domingo, Março 01, 2009
Sepulcro...
Constituí-me sepulcro aberto
Receptáculo de um amor
Que arquitectamos no
Contínuo do espaço e do tempo...
Nas montanhas dos afectos que diligentemente sulco
Sou homem na busca incessante
Da blandícia de um vale de cristal
Em cuja profundidade anseio perder-me.
Na luz da crepúsculo,
Em que vivo a tua ausência,
Antevejo as abluções nocturnas
Que me conduzem à epifania
De um sentimento maior
Repousando no Éter
Que sobrepuja o mundo absoluto
Das efémeras percepções sensoriais.
Voo no mais íntimo do teu ser
Para me reencontrar
No brilho de um lúzio cor de terra
Que me fita com a bonança
Da leve brisa que aflora a superfície
Do meu cansado corpo
Insuflando as velas do meu contentamento.
Rui Amaral Mendes [Na luz do crepúsculo]
Receptáculo de um amor
Que arquitectamos no
Contínuo do espaço e do tempo...
Nas montanhas dos afectos que diligentemente sulco
Sou homem na busca incessante
Da blandícia de um vale de cristal
Em cuja profundidade anseio perder-me.
Na luz da crepúsculo,
Em que vivo a tua ausência,
Antevejo as abluções nocturnas
Que me conduzem à epifania
De um sentimento maior
Repousando no Éter
Que sobrepuja o mundo absoluto
Das efémeras percepções sensoriais.
Voo no mais íntimo do teu ser
Para me reencontrar
No brilho de um lúzio cor de terra
Que me fita com a bonança
Da leve brisa que aflora a superfície
Do meu cansado corpo
Insuflando as velas do meu contentamento.
Rui Amaral Mendes [Na luz do crepúsculo]
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