Quinta-feira, Abril 30, 2009

Parting...

He:
Dear, I must be gone
While night shuts the eyes
Of the household spies;
That song announces dawn


She:
No, night's bird and love's
Bids all true lovers rest,
While his loud song reproves
The murderous stealih of day.

He:
Daylight already flies
From mountain crest to crest.

She:
That light is from the moon

He:
That bird...

She:
Let him sing on,
I offer to love's play
My dark declivities


WB Yeats

Indie...

O resgaste continua sob a doce sonoridade das vozes femininas.

RAM



[Bat for Lashes - Daniel]

Quarta-feira, Abril 29, 2009

Silêncio...

Há o silêncio de antes da palavra.
E aquele que, depois dela, deixa sítio
para subirem pausas
com outras dentro desenvolvendo o limbo
por onde suba inviolável, alta
a melodia do que foi esquecido.
Esse silêncio pauta.
Vai decifrando vestígios
de quanto o precedeu no gasto mapa
de que é possível compulsar o ritmo.
E estar à escuta com, ao fundo, a alma
a desprender-se. Subindo
até o silêncio recobrir a água
e desnudar a solidão do espírito.


Fernando Echevarria

Sábado, Abril 25, 2009

Corria o ano da graça de 1974...

Embora desejássemos mais do que tudo no mundo ver cessar a humilhação, o desprezo e a mentira, já não necessitamos da certeza na vitória para continuar a luta. As verdades exigentes renunciam à vitória e resistem por resistir.

Edgar Morin

Quinta-feira, Abril 23, 2009

Voyager...

The untold want, by life and land ne’er granted,
Now, Voyager, sail thou forth, to seek and find.


Walt Whitman

Quarta-feira, Abril 22, 2009

Revelação...

só conseguia amar-te se falasse de mim
sem cessar

hoje vivo quase sempre sozinho
paciência
os momentos de infelicidade estão esquecidos

uma pétala de luz percorre as linhas da mão
o rosto é aquele que sonhei
e não o que a noite de espelhos tenta dar-me

eis o retrato de meu único amigo
a quem tudo revelo
o que me cresceu no coração


Al Berto

Terça-feira, Abril 21, 2009

No island...

Eis o ser humano da pós-modernidade: sobrevive em metrópoles frenéticas, mais ou menos cosmopolitas, amiúde insensível à hermenêutica das coisas mais simples que o rodeiam e ao sentido mais puro dos dias.

Ei-lo que, cego, sob uma escuridão ofuscante, mergulha nas sendas das cidades interiores, procurando o reposicionamento do centro de gravidade.


RAM




[Jason van Genderen - Mankind Is No Island]

Domingo, Abril 12, 2009

Luz...

cinjo-me com palavras
entre cada uma das pedras calcorreadas
e busco seres magnificientes habitando
o significado profundo do verbo

a lugubridade da noite interior
trespassada por uma espada forjada no fogo das palavras
é dissipada pela luz que se espraia
pelos vitrais que decanteiam os primeiros raios:

uma ferida humana tocada no epicentro
pelo arcano alento exalado sobre si.


Rui Amaral Mendes

Sábado, Abril 11, 2009

Décima segunda estação...

não se alimenta dos dias fatigados este vazio
onde soçobro

nem se povoa o desamparo das palavras
quando tombam
nem as gradações da luz
em nós procuram
a febre as obras as razões

esvaziado por fim o coração
é vasta a noite
escura
e dura
o corpo ausente

transportamos o vazio na senda dos teus passos
não é consolo o amor
mas espessura


Luís Soares Barbosa

Quinta-feira, Abril 09, 2009

A ceia...

Participei hoje na celebração da Ceia do Senhor, na bela Capela de Fradelos.
Para os catecúmenos, em particular, esta celebração encerra o sentido profundo de mais um dos gestos que simbolizam e revestem este início de vida em-Cristo e na-Igreja, num itinerário já longo, que culminará na Vigília Pascal, projectando-se no tempo que há-de vir.
Invoco nos passos de cada um o sentido primacial do caminho que também eu percorri: repenso a profundidade do Mistério e questiono se tendo assumido a condição e o desafio de um homem a caminho, alguma vez serei diáfano à densidade da Luz:


Às vezes rezo
sou um cego e vejo
as palavras o reunir
das sombras

às vezes nada digo
estendo as mãos como uma concha
puro sinal da alma
a porta

queria que batesses
tomasses um por um os meus refúgios
estes dedos
inquietos na ignorância
do fogo

pois que tempo abrigará
os anjos
e que dia erguerá todo o sol
que há nas dunas

por isso
às vezes chove quando rezo
Às vezes quase neva
sobre o pão


José Tolentino Mendonça


RAM

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Silêncio...

não sei se alguma vez viste
crescer a morte sobre um corpo

é como uma infância
de que se desconhecem os modos
ou o lento estalar de um vidro

são como imagens as imagens
partidas esse abandono de partir
o que em água viram os olhos

por esse lençol subido de silêncio
sobe nu de tempo um homem
com mãos devagar de luz
a morte cresce com ele
é o seu corpo que poderá ser
a palavra


Pedro Sena-Lino

Domingo, Abril 05, 2009

Guimarães e outras estórias...

Regresso de fim-de-semana em Guimarães, surpreendido com a cidade que reencontrei.
Recobro forças no recuperado Mosteiro de Santa Marinha da Costa, Prémio Nacional de Arquitectura em 1987: vetusto edifício que inicialmente albergou os cónegos regrantes de Santo Agostinho e mais tarde os monges da Ordem de S. Jerónimo, e que hoje integra a rede das Pousadas de Portugal.
Alegro-me com a constatação de que a urbe vimaranense, contrariamente à minha amada cidade Invicta, não adormeceu à sombra do (merecidíssimo) estatuto de Património Mundial da UNESCO: à requalificação do riquíssimo património histórico e arquitectónico, os responsáveis locais associaram uma impressionante dinamização cultural não apenas do Centro Histórico, mas de outros equipamentos que estabelecem uma simbiose perfeita entre o passado e a dinâmica contemporânea das vivências urbanas, e de que o
Centro Cultural de Vila Flor é um exemplo paradigmático. Aí tive o grato prazer de assistir a um concerto intimista do nova-iorquino Mike Doughty, acompanhado por Andrew "Scrap" Livingston no violoncelo:

"Yeah, I’m just a zip code man
I got my house and I’ll stay in if I can, but I
Don’t care to keep my fences
I just want the girl in the blue dress to keep on dancing"


[Mike Doughty - I just want the girl in the blue dress to keep on dancin' ]


Regresso ao Porto, com passagem pelo Mosteiro de Singeverga onde participo na celebração eucarística no Domingo que abre as celebrações da Semana Santa e reflicto sobre as palavras do bom amigo que me revelou as diferentes dimensões dos horizontes da Palavra: "Uma das coisas que mais nos choca nestes dias é o lugar insignificante que a Páscoa ocupa entre nós, reduzida a um folclore superficial e ridículo".


RAM

Sábado, Abril 04, 2009

Nota do autor...

A autora do "O Privilégio dos Caminhos" decidiu atribuir-me uma distinção que considero imerecida, mas que muito agradeço.
Sendo, por princípio, avesso às múltiplas correntes que pululam na web, mas também por incapacidade objectiva em cumprir com as regras subjacentes, resta-me agradecer o amável comentário com que me presenteou.


RAM