Terça-feira, Junho 30, 2009

Remains...

Picture and book remains,
An acre of green grass
For air and exercise,
Now strength of body goes;
Midnight, an old house
Where nothing stirs but a mouse.

My temptation is quiet.
Here' at life's end
Neither loose imagination,
Nor the mill of the mind
Consuming its rag and bone,
Can make the truth known.

Grant me an old man's frenzy,
Myself must I remake
Till I am Timon or Lear
Or that William Blake
Who beat upon the wall
Till truth obeyed his call;

A mind Michael Angelo knew
That can pierce the clouds,
Or inspired by frenzy
Shake the dead in their shrouds;
Forgotten else by mankind,
An old man's eagle mind.

WB Yeats

Segunda-feira, Junho 29, 2009

Silêncio...

havia uma vez as mãos do poema
seguravam os sonhos infantis
para que chegassem mais longe

davam vida por "veias incorruptas"
e se as chamavam de longe
chegavam como se tivessem estado
desde o princípio do mundo
na sombra iluminada do grito

havia essa força de remoto pai
um porto acima dos dias e
na mais impossível morte

se caíres pai caio também
partilhamos os verbos todos em silêncio


Pedro Sena-Lino

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Infinito...

Cuando no puedo distinguir si estoy
con los ojos abiertos o cerrados,
y el mundo es jaspeado
como un abrigo de cheviot,
y una hilera de hormigas incoloras
me recorre la espalda
desde la rabadilla hasta la nuca,
y todo se amortigua,
siento cómo tus manos
me agarran los tobillos,
cómo tiran de mí, cómo me dejo
arrastrar suavemente a los pies de la cama,
cómo quiero llegar al final del trayecto
y cómo ese trayecto es infinito.

Amalia Bautista

Terça-feira, Junho 23, 2009

Cenários políticos outonais...

Eduardo Pitta publicou no Da Literatura uma antevisão de diversos cenários susceptíveis de emergirem das próximas eleições legislativas.
Ao texto em questão deu o título de "
Momento Zandinga".
Não me delongo em considerandos sobre a explanação das consequências práticas inerentes a cada um dos cenários. Julgo ser evidente a ironia/sarcasmo que presidiu à redacção do texto, embora, nalguns casos, o autor não esteja muito longe daquilo que será a realidade das coutadas partidárias e pessoais em momentos conjunturais muito definidos.
Acima de tudo, gostei do texto pela questão primacial lhe serve de leitmotiv e pela conclusão a que chega.
Devo confessar: preocupa-me viver neste país-Zandinga…


RAM

Domingo, Junho 21, 2009

Estio...

a lembrança de doces noites de estio e
a visão de um corpo desnudo sentado
sobre a alcova onde nos imolamos na

intimidade alva dos lençóis

mãos cruzadas sobre o ventre
os olhos baixos
a curvatura da cabeça
mimetizando o arco perfeito da anunciação

por entre dedos

correm finos fios ondulados
com que teço baias filigranas
cobrindo tua nuca

cachos caindo sobre suave dorso
cujos contornos busco em caricias
que revelam o toque singular

do teu ser


Rui Amaral Mendes (Na luz do crepúsculo)

Lamentável estupefacção...

Casa da Música.
20 de Junho de 2009

Concerto da Orquestra Nacional do Porto, dirigida pelo Maestro Christoph Köning.
Peças de Pyotr Tchaikovski, Dmitri Chostakovitch e Sergei Prokofieff.

A presença não era obrigatória.
Talvez por causa deste "pequeno pormenor", não pude deixar de ficar incomodado com os comentários cretinos de quem não se coíbe de partilhar a sua estupidez com as pessoas que se encontram no espaço periférico.

Embora Chostakovitch não seja um dos meus compositores de eleição, dispensava ouvir uma "distinta" senhora, vestida a preceito, que, sentada atrás de mim, durante o concerto n.º 1 para violoncelo e orquestra, op. 107, de Chostakovitch, prontamente manifestou a sua surpresa pelo facto de "existindo tantos instrumentos em palco, somente tocar o senhor do violoncelo".
Mais tarde, já após um curto intervalo, declarou: "Já só faltam 28 minutos!" (a duração aproximada de cada uma das partes constava do programa).
Pergunta: porque se deslocou esta ilustre dama à Casa da Música? Porquê?!
O casal a meu lado foi (ligeiramente) mais coerente: após Tchaikovski e Chostakovitch optou por não regressar à belíssima Sala Suggia.
Perderam Prokofieff.
São opções...



RAM




[Prokofieff - Romeo & Juliet (Berlin Philarmonic Live at S. Petersburg)]

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Poemas para a noite invariável...

Posso estar aqui
eu posso estar aqui perfeitamente pobre
um círio me acendi espora aguda
o vento ritmo negro assassinou-o

posso estar aqui
- o musgo é lento como a sombra -
e sei de cor a voz cega das canções
(viola de silêncio acorda-me)

que eu posso estar aqui perfeitamente pedra
insone
e um longo segredo impessoal
bordando a minha solidão


Luiza Neto Jorge

Domingo, Junho 14, 2009

Paz...

Ficou-lhe a paz. Do tempo
em que, movido o olhar à santidade,
parávamos no campo vendo
correr a água e adubar-se o caule
que abrirá sua roda de sustento
à fadiga do homem, que uma coroa de aves
reconhece no ar, de estar aberto
à cálida saúde da passagem.
Depois da missa, pelo domingo adentro,
crescia essa saudade
fresquíssima de estarmos tão atentos
à tarefa que, sem nós, a tarde
cumpre na terra. E mesmo ao pensamento
que amadurece nas árvores,
tocadas longe, no estremecimento
que se enreda por nós e em nós se abre.
Ficou-lhe a paz. O doce movimento
que nos inclina para a primeira idade.


Fernando Echevarria

Sábado, Junho 13, 2009

Interrogação...

porquê esta ansiedade ao
virar a página
se ninguém é passível de se
esconder entre as
folhas de um livro

valter hugo mãe

Sexta-feira, Junho 12, 2009

Confirmação...

A suspeição inicial deu lugar a confirmação factual: o panorama musical independente está, presentemente, particularmente rico, em muito graças aos fabulosos contributos femininos.
Cat Powers, Emily Haines, Au Revoir Simone e, agora, Bat for Lashes. A suavidade da voz desta última - e das demais - encanta-me.
Uma simbiose perfeita entre sons e palavras.

Julgo ter encontrado companhia para os serões de Outono em Amesterdão.

RAM




[Bat for Lashes - Prescilla(Live at CD101 Big Room)]

Quinta-feira, Junho 11, 2009

A pearl...

Encumbered forever by desire and ambition
There's a hunger still unsatisfied
Our weary eyes still stray to the horizon
Though down this road we've been so many times

The grass was greener
The light was brighter
The taste was sweeter
The nights of wonder
With friends surrounded
The dawn mist glowing
The water flowing
The endless river
[...]

David Gilmour



[Pink Floyd - High Hopes (Live at the Royal Albert Hall)]

Quarta-feira, Junho 10, 2009

Mais um 10 Junho...

Para ser português, ainda, vive-se entre letras de poemas e esperanças, cantigas e promessas, de passados esquecidos e futuros desejados, sem presente, sem pensamento, sem Portugal. Para ser português, ainda, aprende-se a existir no gume da tristeza, como um equilibrista num andaime de navalhas levantadas, numa obra que se vai construindo sob uma arquitectura de demolição. Tínhamos direito a um Portugal inteiro, com povo e com a terra, mas o povo enlouqueceu e a terra foi arrasada e tudo o que era pátria, doce e atrevida, se afasta à medida que olhamos para ela, tal é ânsia de apagamento e de perdição. Escondeu-se nos poetas e cantores. Recolheu-se nas vozes fundas de onde nasceu. Portugal abrigou-se em portugueses e portuguesas nos quais uma ideia de Portugal nunca se perdeu.
Para se ser português, ainda, é preciso estreitar os olhos e molhar a garganta com vinho tinto para poder gritar que isto assim não é Portugal, não é país, não é nada. Torna-se cada vez mais difícil que o povo e a terra e a ideia se possam voltar a reunir.
[...]


Miguel Esteves Cardoso

Sexta-feira, Junho 05, 2009

Shanghai e outras ausências...

Tenho vivido no epicentro dos dias - semanas - alimentado pela adrenalina dos desafios que se atravessam no caminho. Agora, pelo menos, mais do que é habitual.
Viagem a Shanghai em demanda das mais recentes evoluções da ciência e da arte (assim a designam), levando na bagagem o meu contributo, apenas para, mais uma vez, sofrer o terrível anti-clímax do regresso a Portugal.
Tenho diagnóstico feito, embora tardiamente confirmado: sofro de "depressão de regresso", estado patológico que desisti de combater e que agrava o meu estado de workaholic natural.
Tristemente constato que cada vez gosto mais do meu País... lá fora.
Os dias sucedem-se a um ritmo alucinante, como se trouxesse Pudong nas veias.
Contrariamente ao sucedido com Tom Baxter, em The Purple Rose of Cairo, em terras ondes impera o mandarim, fui eu que me senti transportado para dentro de Lost in Translation. Uma espécie de Bob Harris, embora sem Charlotte.


[Brian Ferry - More than this (Lost in Translation)]

Acossado pela insónia decorrente do jet lag, matei lentamente o tempo embrenhando-me nas palavras de um agonizante Miguel de Unamuno: "E o que mais nos une a cada um consigo próprio, aquilo que faz a unidade íntima da nossa vida, são as nossas discórdias íntimas, as contradições interiores das nossas discórdias."

A magnífica Shanghai, foi local de reencontros: uma espécie de Presente dando especial sentido às opções do Passado.
Mergulhei na opulência de uma sociedade capitalista do século XXI, enxertada sobre conceptualizações filosóficas cuja génese remonta ao longínquo século XIX.
Na curta viagem de 7 minutos que liga os 30km que separam a cidade do aeroporto, a bordo do fabuloso Maglev, um colega belga questiona-me sobre se ainda acredito na politica. Discutíamos o mundo. Respondo-lhe que acredito na cidadania de corpo inteiro.
Dir-se-ia que foi uma fuga para a frente. Talvez!
Em Frankfurt compro "The Conscience of a Liberal" de Paul Krugman, cujas crónicas no New York Times tanto aprecio . Como é interessante ler reflexões escritas sem as grilhetas de timings eleitoralistas.
A chegada a Portugal presenteia-me com plurais Europeus, homens que subscrevem por baixo, homens que não brincam, mulheres ditas diferentes ou apenas com esperança. Temos dedos acusatórios prometendo uma sempre adiada justiça e puristas que pugnam pela meritrocracia sociológica.
E eu sinto-me confuso. Muito confuso.

Da Europa, resquícios. Do País, ausência de ideias.
Apenas reencontro um amor pela Liberdade, resgatada num acto primacial de valorização daquilo que nos foi negado. Liberdade de pensar. De verbalizar o pensamento. De materializar as palavras.
Ironicamente, na Shanghai pela qual me apaixonei, senti, essencialmente, uma alienante desvalorização do amor mais primordial.





RAM